O Filho da Queda: O Herege

Autor: T.C. Oaks

Sinopse

Um assassino serial aterroriza a cidade de São Paulo. Apelidado de O Herege, por atacar e matar somente pessoas da classe sacerdotal, esse maníaco é conhecido por sua brutalidade e crueldade. O delegado Carlos Eduardo, responsável pela caça ao assassino, fará de tudo para capturá-lo. Sua oportunidade surge quando uma sobrevivente é encontrada vagando por São Caetano do Sul, nua e coberta de sangue. Alheio a tudo isso, Jack, um jovem psiquiatra em ascensão, frustrado com o término de seu namoro, precisa lidar com um novo e complicado caso: o de uma assassina que se julga caçadora de criaturas das trevas. De repente, ele se vê mergulhado em um verdadeiro pesadelo ao descobrir que as alucinações de sua paciente são mais reais do que ele gostaria de acreditar e Jack terá de lutar por sua vida ao confrontar uma criatura ancestral que lhe revela que o mal é eterno.

Prólogo

O sol tingia o céu de São Caetano do Sul de tonalidades róseas e Rita terminava sua ronda. A jovem policial apreciava aquele momento, a aurora. Gostava dessa palavra e sempre dizia que batizaria sua filha assim, se um dia tivesse uma. Rita sorria em seu devaneio, curtindo os últimos momentos de seu trabalho, quando quase atropelou uma jovem que atravessou a avenida de maneira desvairada. Rita freou, fazendo os pneus gritarem em resposta e o cheiro de borracha queimada subir aos céus.

Desceu do carro e foi furiosa na direção da menina. Por haver muitos bares na região que funcionam até a madrugada, principalmente aos sábados, chegando como naquele momento até a manhã de domingo, tinha certeza de que seria uma dessas meninas perdidas na bebida que cometem atos irresponsáveis. Preparou-se para aplicar um sermão e, dependendo do caso, levar a menina para a delegacia; o susto às vezes serve como lição. Quando pousou os olhos na jovem, todavia, sentiu a descarga de adrenalina tomar conta de si e seu coração acelerar. A jovem, completamente nua, estava coberta em sangue.

Já passara por situações das mais diversas durante as vigílias na madrugada, mas nunca por alguma parecida com essa. Sacou a arma, vendo que a jovem soluçava e tremia em espasmos.
– O que aconteceu? – Indagou já vasculhando o ambiente com o olhar em busca de suspeitos. – O que houve?
A menina desmoronou em seus braços, com os olhos verdes esbugalhados, a expressão demonstrando todo o pânico de sua alma; a pele fria ao toque.
– Me ajude... O Padre Jair, a Lucia, todos mortos, todos mortos! – A menina começou a gritar, histérica. – Oh Deus, me ajude!
– Onde você estava? Onde aconteceu isso? – A policial esforçou-se para ser ao mesmo tempo dura, para tirar a garota do choque, e gentil, para fazê-la se sentir protegida.
– Na Matriz, oh Deus, a Igreja... – A jovem continuava balbuciando e soluçando sem sentido. Rita colocou-a no carro, cobriu-a com seu sobretudo e acelerou até a porta da igreja enquanto falava ao rádio.
– Central, aqui é a policial Souza. Temos uma suspeita de homicídio. Solicito todas as unidades disponíveis para a Igreja Matriz. Urgente! Tenho uma jovem no carro coberta de sangue, possivelmente vítima de estupro. Venham agora. Repito, venham agora. – Suas palavras ficaram entaladas na garganta quando avistou a majestosa igreja.
O que antes era uma casa de oração agora era um local profanado. Chamas tremulavam dentro do templo, e, em cada uma de suas duas portas escancaradas e arrebentadas, duas mulheres nuas encontravam-se crucificadas de ponta-cabeça.
– Minha mãe do céu! – Rita falava enquanto fazia o sinal da cruz com a mão livre. Falou nervosa ao rádio: – Jesus Maria José! Atenção, enviem bombeiros e, pelo amor de Deus, venham depressa! – A última frase fora gritada ao aparelho. Sem esperar, saiu do carro empunhando a pistola e ignorando os débeis gemidos desconexos da jovem ao lado. – Fique no carro, está bem? – Falou da forma mais gentil que conseguiu, embora ouvisse o próprio tremor na voz.

Passo a passo adentrou no templo. Amava aquela igreja. Era devota de Nossa Senhora e ia todos os domingos à missa. Fora a Aparecida em procissão duas vezes: uma na adolescência, outra quando a mãe fora curada do câncer. Fazia novenas quando possível e nunca ficava mais de um mês sem se confessar, principalmente se atirasse em alguém. Aquela igreja era como uma segunda casa para ela; seu santuário particular, seu local de paz.

Mas não hoje...

Hoje, Rita engolia o grito enquanto seu estômago revolvia-se em fúria, diante da bizarra imagem que a golpeava como uma marreta de cruel realidade. Alguma coisa ardia em chamas no meio da nave, mas ainda não conseguia identificar o que era. Parecia um enorme bloco de madeira, erguido por correntes no centro da construção, do tamanho de um saco de cimento; outros quatro blocos menores ardiam em cada um dos cantos da igreja; finalmente, um outro objeto, do tamanho de uma bola de futebol, jazia em chamas no altar; os outros objetos flamejantes, se assemelhavam a toras grandes do tamanho de traves. Sangue cobria as colunas e o chão, como se um enorme saco cheio do líquido rubro tivesse sido estourado no centro do templo. Para seu horror, cinco mulheres nuas, ensanguentadas e empaladas estavam espalhadas pelas laterais da igreja, onde outrora famílias haviam dedicado grandes recursos para tornar o local aprazível e belo. Rita via suas entranhas escorrendo pelas estacas que as trespassavam e saíam por suas bocas. O cheiro de fezes e sangue só não era pior, porque aquilo que queimava fedia ainda mais.

Ela se aproximou do objeto no altar no intuito de tirá-lo de lá, mas, ao vê-lo, finalmente gritou. Encontrara o Padre Jair, ou melhor, sua incandescente cabeça.

O que Achou?