Narrativas do Imaginário Noturno - Monte Azul

Autor: T.C. Oaks

Sinopse

"Os contos a seguir foram escritos ao longo do curso “Narrativas de Horror: da Teoria à Prática”, ministrado entre julho e agosto de 2016. No entanto, é provável que as ideias que lhes deram origem já existissem nos porões mentais de seus autores. É provável que seguissem lá no fundo, entre memórias abandonadas e medos empoeirados -- à espreita e ameaçadoras." Dessa maneira meu mentor e mestre Oscar Nestarez explicou um pouco do surgimento desse livro. Tive a grata experiência de conhecer outros autores de horror, e ainda mais descobrir que Bruna, minha esposa, que sempre pareceu uma aficionada por literatura mais "cor de rosa" podia me aterrorizar com seu relato em Chimmneys. Escrevi o Monte Azul uma história que tenho muito carinho. Deixo uma palhinha dela para que possam apreciar:

Prólogo

Monte Azul

 

Título: Achei minha tese de Doutorado!!
De: ton.mtz@gmail.com Data: 15/03/2016
Para: dante.claudino@usp.edu.br  

 

Professor:

 

Pensei muito no que o senhor falou. Falar de meu bisavô não seria nada demais. Só mais um falando do maior industriário brasileiro. Mas cavoucando entre a velha papelada de família descobri algo fantástico: ele teve uma amante!

Foi logo que veio pro país. Ainda vivia em Sorocaba e, embora já fosse um homem rico e famoso, o império era só um sonho distante. Parece que se envolveu com uma funcionária local, estou pesquisando direito, mas, quando descobriu da gravidez, comprou para ela uma fazenda em Minas Gerais, numa cidadezinha, estou tentando ir mais fundo nisso. Assim que achar algo te aviso.

Vou atrás dessa família bastarda e penso em fazer meu doutorado sobre esse lado de meu bisavô que ninguém conhece. O que acha?

 

Abraços

 

Ton

 

Título: RE: Achei minha tese de Doutorado!!
De: dante.claudino@usp.edu.br Data: 15/03/2016
Para: ton.mtz@gmail.com  

 

Caro Antônio,

 

Excelente escolha!

Mostrar um pouco do homem falível e (quem sabe) corruptível, contrastando com o gênio empreendedor que foi seu bisavô, com certeza dará uma nova luz ao entendimento de quem foi o grande Francesco.

Embora a história seja recheada de boatos, nunca houve provas inegáveis de uma concubina. Portanto, sua pesquisa seria deveras apreciada no meio acadêmico, uma vez que sua família sempre foi muito reservada em relação ao Conde Francesco.

Provas de uma vida dupla seria magnífico!

Fico no aguardo – Dante.

 

Título: Ahaaaaa!!!!!!!!
De: ton.mtz@gmail.com Data: 21/04/2016
Para: dante.claudino@usp.edu.br  

 

Demorou, mas achei!!!

 

Realmente existe uma fazenda! Está em nome de uma tal de Iolanda Silva. Meu “biso” comprou em moeda viva e passou tudo para o nome dela. A única coisa que tenho como registro é esta pequena carta do antigo proprietário, um tal Ermenildo Zenite, que segue anexada.

Estou investigando para tentar achar essa escritura à qual ele se refere e saber quem é essa tal de Iolanda.

 

Ton

 

P.S.: O recibo está anexado.

 

Sorocaba, 8 de novembro de 1897

 

Caro Sr. Francesco;

 

Conforme solicitado, envio-lhe a escritura e recibo da compra da Fazenda Monte Azul, em Arraial São José. Ela já se encontra transferida para o nome da senhorita Iolanda Silva.

A propriedade tem uma bela e rentável produção de café e funciona de maneira quase independente. Seu zelador e administrador, um caboclo de nome Otávio, é um homem muito eficaz e honesto, o qual nasceu, vive e trabalha neste local há mais de trinta anos. Trabalhei com seu pai antes dele, o rapaz aprendeu bem e lhe será muito útil.

Embora entristeça-me o coração desfazer-me de tal propriedade, alegra-me saber que ela agora encontra-se em boas mãos.

A doença e a idade não me permitem mais cuidar dela como deveria, e, embora Otávio seja um homem muito capaz, é preciso um certo aporte financeiro para fazer essa lavoura tornar-se mais rentável. Um investimento que, infelizmente, não sou capaz de realizar.

Novamente coloco-me à disposição para sanar qualquer eventual dúvida.

 

Afetuosamente,

 

Ermenildo Zenite.

 

Título: RE: Ahaaaaa!!!!!!!!
De: dante.claudino@usp.edu.br Data: 15/03/2016
Para: ton.mtz@gmail.com  

Caro Ton,

 

Como dizia o célebre Joseph Conrad: “nada nos deixa mais aberto à carga de exagero do que a verdade nua e crua”.

Jamais ouvi ou li algo a respeito dessa fazenda. Seu bisavô manteve esse segredo muito bem guardado.

Sabe onde fica o imóvel? Vi o recibo de venda, mas não a escritura.

Você a tem? – Dante.

 

Título: BINGO
De: ton.mtz@gmail.com Data: 26/07/2016
Para: dante.claudino@usp.edu.br  

 

Dante, conseguimos! Acho que realmente achamos!

Cheguei na cidade de Ituiutaba, em Minas Gerais, no dia 20. Pelo que minha pesquisa me indicou, é aqui que fica a Fazenda Monte Azul. Ituiutaba tem uns 100 mil habitantes e é uma cidade moderna, quase nada existe aqui que seja do século passado. Depois de horas entre caixas de papelão mofadas, achei o que procurava: a escritura da Fazenda Monte Azul em nome de um tal de Ítalo Francisco Rodrigues.

Foi um balde de água fria, quando percebi que o tal ítalo herdou a fazenda no ano de 1943. No entanto, lendo um pouco mais, qual não foi minha surpresa quando percebi que esse tal de Ítalo recebeu a casa de herança de ninguém menos que o senhor Leonardo Silva? Que morreu sem herdeiros e deixou tudo para seu amigo! E tem mais:

Esse Leonardo recebeu a fazenda como herança, por ser o único filho de ninguém mais, ninguém menos que Iolanda Silva! Dona Iolanda faleceu no ano de 1938 e, por acaso, comprou as terras de um certo senhor Ermenildo Zenite no ano de 1897!

Mas a cereja do bolo eu deixei pro final:

No final da escritura, bem no fim da página, na parte reservada para as testemunhas, tem uma assinatura sem nome em baixo. Tirei uma foto e confirmei com o advogado da minha família: é a assinatura do meu bisavô!

Hoje vou até o cemitério. Vou achar o túmulo do meu “tio Léo”.

 

Abraços!

 

Ton

 

Título: RE: BINGO
De: dante.claudino@usp.edu.br Data: 26/07/2016
Para: ton.mtz@gmail.com  

 

Ton

Não tenho como expressar o quão magnifico é essa descoberta!

A assinatura de seu bisavô é quase um teste de DNA!

Aguardo ansiosamente novidades do cemitério!

Caso consigamos exumar o corpo, poderíamos fazer um exame e autenticar a veracidade de nossas especulações a respeito da paternidade de Leonardo. Seria fantástico termos a prova inegável de que ele é mesmo o bastardo de Francesco!

Meus parabéns, meu rapaz. Parece que temos não só uma tese de doutorado, mas um verdadeiro achado arqueológico! – Dante.

 

Título: RE:RE:BINGO
De: ton.mtz@gmail.com Data: 27/07/2016
Para: dante.claudino@usp.edu.br  

 

Dante, você não vai acreditar!

Cheguei ao cemitério um pouco depois do meio dia. O dia aqui estava nublado e meio chuvoso. O cemitério é bem antigo e grande, com lápides altas e deprimentes, abandonadas e vigiadas pelos mausoléus dos falecidos.

Caminhei por entre as lápides abandonadas em busca do túmulo. Levei algumas horas, mas finalmente achei o que procurava.

Foi um pouco decepcionante, na verdade. A lápide é de cimento e muito simplória: somente um quadrado de concreto sem azulejos ou outros detalhes. Nem mesmo uma foto.

Havia somente duas pequenas placas: uma em nome de Iolanda Silva, nascida em 30 de agosto de 1876 e falecida no dia 17 de maio de 1938 – só isso, nada mais; a outra era a mais interessante. Estava em nome de Leonardo Silva, nascido em 21 de abril de 1897 e morto em 17 de maio de 1940. Até aí tudo bem. No entanto, havia uma pichação sobre a lápide. Estava escrito: “Nem a terra aceita receber as pessoas que maltratam seus pais”.

A inscrição era bem antiga, quase tão antiga quanto o túmulo. Boa parte da tinta estava descascada, mas a escrita ainda era visível. Achei curiosa a inscrição e fui até o coveiro para perguntar o que aquilo queria dizer.

Era um caboclo de meia idade, de dentes amarelos e exalando álcool e suor. Ao ouvir minha pergunta, primeiro fez o sinal da cruz e depois virou a cabeça para a esquerda e soltou um escarro enorme. “Esse homem era coisa ruim”, falou para mim. Depois me contou que Leonardo era chegado em mulheres e gastava todo o dinheiro da mãe com as prostitutas da cidade. Ele disse que Leonardo era um mau caráter e um filho ruim. Dizia-se filho de um figurão de São Paulo, mas o coveiro me garantiu que o verdadeiro pai do rapaz era nada mais, nada menos que o próprio diabo, de tão ruim que ele era!

Segundo o coveiro, a mãe morreu da tristeza e dos maus-tratos do filho. Depois da morte dela, Leonardo viveu na gandaia, mas por pouco tempo, porque bateu as botas dois anos depois.

E aí a história fica mais interessante:

Segundo o coveiro, Leonardo “era tão ruim que nem mesmo o capeta quis ele!”. O túmulo estava vazio, porque, segundo o homem, a “terra cuspiu o Corpo Seco de volta!”.

Perguntei o que ele queria dizer com “Corpo Seco”, mas a única coisa que o velho disse foi que “Não se deve mexer com essas coisas. Quando se fala do diabo num lugar como esse, o diabo ouve e às vezes responde” – dá pra acreditar que ele disse exatamente isso?

Pelo menos ele me deu uma informação relevante sobre o paradeiro do tal Ítalo: ao que parece, o homem era um aventureiro. Era apaixonado por viagens e se mudou ainda jovem para a Europa, mas voltava regularmente para cá, pois tinha grande estima pelo falecido. Depois de herdar a fazenda, trancou tudo, foi para a Europa e nunca mais voltou.

Ele tem uma sobrinha que vive aqui perto, Patrícia. Liguei para ela e irei lá amanhã.

Essa história se torna cada vez mais intrigante. Mal posso esperar para encontrá-la!

 

Mando notícias.

 

Ton.

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