Entrelinhas 2 - Sinfonia

Autor: T.C. Oaks

Sinopse

Entrelinhas foram meus primeiros trabalhos publicados. Na época o Filho da Queda ainda era um embrião e Maudsley nem sonhava em existir! Entrelinhas era uma antologia de Crônicas e Contos sua publicação ocorreu no ano de 2012. Sinfonia é uma crônica sobre uma de minhas paixões: Música Sinfônica! Caso deseje adquirir uma cópia entre em contato por email. Abaixo você confere o conto completo. Boa Leitura.

Prólogo

Este sábado resolvi fazer um passeio diferente. Decidi alimentar um pouco minha mente, liguei para alguns amigos mais antenados nos eventos da cidade do que eu, e escolhi um destino cultural: Iria ao concerto da OSSA - Orquestra Sinfônica de Santo André.

Munido de um alvo segui a meu destino. Primeiro segui o caminho que parte da Avenida Paes de Barros, nome Duplo para destacar sua importância, afinal, não são todas as avenidas que se podem dar ao luxo de serem mais importantes que a rua que dá nome ao bairro, afinal temos a Rua da Mooca, na Mooca, mas nenhuma travessa, rua ou avenida é mais emblemática neste Bairro Italiano que sua Nobre Paes de Barros! Desci então até a pobre e plebeia Anhaia Melo, ou assim o era. Hoje, a Anhaia Melo é uma burguesa que já pode se considerar uma nova rica. Curioso ver como o progresso chega. Essa avenida era desprezada e totalmente marginalizada, na verdade ainda mais marginal que a Marginal, mas agora que o Metro subterrâneo subiu de vida, e anda num trilho suspenso só para ele na avenida, ela também foi privilegiada.

Da Anhaia Melo segui para a Avenida dos Estados, essa, continua modesta, não é paulistana, nem São Caetanense, nem Bernardina e nenhum dos ABC´s, é uma avenida nômade se assim se pode dizer. Pegamos os mil viadutos e chegamos a Santo André.

Santo André deveria ter sido o Padroeiro dos Viajantes, porque é impressionante como é só descer do viaduto de Santo André para encontrar-se totalmente perdido! Santo André tem esse talento, os engenheiros de lá devem planejar as ruas de uma maneira que sempre fazem você se perder.

Depois de rodar algumas vezes cheguei ao paço municipal, neste momento, minha paciência estava quase esgotada e meu humor era menor que o combustível do meu carro.

Adentrei o Teatro Municipal, e esperei pela orquestra começar a tocar. Era a minha primeira vez a um concerto e devo admitir que os sentimentos eram conflitantes dentro de mim. Uma parte de mim sentia-se culto e sofisticado, enquanto outra sentia-se totalmente Nerd e velho, afinal, por definição só alguém muito rico, muito nerd ou muito velho vai a um concerto de uma orquestra sinfônica.

Mas então a música começou, e tudo mudou. Enquanto os instrumentos lançavam ao ar sua canção passei a viajar por caminhos nunca antes imaginados.

Enquanto a banda afinava seus instrumentos fui vendo a estrada que se formava diante de mim. Começou por uma estrada de terra, mais uma trilha, o primeiro instrumento, o Violinista principal aquele que dá o tom, o Bandeirante pioneiro desmata as matas do silêncio trazendo o caminho que todos os outros devem seguir. Então um a um os instrumentos começam a se unir, e a estrada de terra aos poucos transforma-se numa rua, e a rua vira uma avenida, e então uma estrada de pistas largas. E neste momento, o grande condutor daquela viagem, o maestro entra no recinto. E ao mover de suas mãos a cacofonia de sons torna-se uma viagem extraordinária. Então passei a saltar de batida em batida pelos bumbos e tambores, deslizei pelos fios do violino a terras distantes, e o som dos trompetes trombones e flautas me faziam voar por um universo nunca antes percebido, A música fluía para dentro de mim e passei não mais a ouvir com os ouvidos, mas com todo meu corpo, que vibrava com cada instrumento fazendo coração, pulmão e todos os meus órgãos vibrarem como o órgão da orquestra.

E então num grande e explosivo final a maravilhosa música acabou, trazendo-me de volta ao Teatro Municipal de Santo André.

Levantei-me, e segui em direção ao meu carro, pensando na grande viagem que havia feito e olhando as pessoas ao meu redor. Alguns nóias estavam pelos cantos, com o silêncio da morte sobre si, enquanto outros andavam apressados pela Avenida Dom Pedro, e percebi como vivemos num mundo barulhento, porém, silencioso. Todos os dias somos bombardeados com informações, mas nunca paramos para verdadeiramente absorver tudo o que recebemos, somos como a madeira bruta, numa árvore, mas ás vezes alguém nos corta de nossa zona de conforto, e somos lapidados em formas jamais sonhadas e aos poucos somos polidos e encerados, somados a cordas e finalmente encontramos o nosso parceiro o arco que nos dará o tom, para criarmos nossa própria sinfonia. Somos instrumentos musicais, mas sem as hábeis mãos de um maestro, somos madeira muda. O Violino não pode tocar a si mesmo, precisa das capazes mãos de um músico, e é isso que nos torna especial, somos instrumentos musicais com a capacidade de tocar a nós mesmos, somos o instrumento e também o músico, somos uma verdadeira e única sinfonia.

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