As Crônicas de Aip Ion: Maudsley

Autor: T.C. Oaks

Sinopse

Num futuro distante, onde a água é tóxica e letal, a Quarta Guerra assola a região do Pântano, um dos últimos assentamentos humanos, agora que as cidades são dominadas pelos infectados invunches, seres humanos grotescamente deformados e enlouquecidos contaminados pela praga que devastou a humanidade. No seu novo romance, T.C.Oaks apresenta o relato da família Maudsley, em um mundo violento, implacável e sem esperanças, onde todos lutam por seus próprios interesses. Com sua prosa frenética e cheia de ação, o autor nos mergulha em uma ficção científica pós-apocalíptica, em que Andarilho, um jovem viajante, se juntará a Abutre, um homem amargurado e violento, para levar a jovem e silenciosa Calada até a cidade oculta de aip Ion, última esperança da humanidade contra a ameaça Invunche. Porém, o Sapainca, imperador do povo Quechua de Murontanha, pretende ser o único doador de águas da região e caça de modo inclemente os cidadãos da Cidade Oculta. Nessa nova história, T.C.Oaks questiona a bondade inerente da humanidade e retrata a sede de poder e a luta pela sobrevivência, num universo riquíssimo e cheio de emoção!

Prólogo

Diz-se que, no tempo antigo, crianças morriam de fome...

É uma morte horrível a inanição. Seu corpo começa a se autodevorar, inicialmente o fígado e os músculos, tornando a pessoa uma espécie de caricatura bizarra de si mesma. Aos poucos, o organismo passa a devorar pedaços ainda mais importantes, até finalmente desativar partes do cérebro. Nessa hora, é comum apelar aos métodos mais primitivos de sobrevivência, entre eles o famigerado canibalismo. A morte por inanição é uma extenuante agonia que tortura o ser humano por até quarenta dias, quando finalmente, privado de todas as suas reservas, o corpo sucumbe...

Em meu tempo, crianças que morrem de fome são consideradas casos fortuitos!

Aqui, um homem adulto, em plena forma física, levaria no máximo uma semana para padecer de uma morte decrépita e agonizante, se durasse tanto...

No tempo antigo, as pessoas corriam e lutavam por algo que chamavam de “qualidade de vida”! Aqueles que mais acumulavam riquezas eram idolatrados como verdadeiras divindades. Fico pensando quanto tempo essas pessoas durariam no meu tempo, em que viver é um luxo que não podemos ter e nossa única preocupação é sobreviver por mais um dia...

É impressionante pensar que, antigamente, havia um líquido mais precioso que água limpa. Sempre tento imaginar como o mundo baseou todo o seu poder no petróleo.

Não me leve a mal: é obvio que combustível é bom! Quando acho uma lata de óleo, ou algo inflamável, que eu possa usar à noite, quando meus ossos estão congelando, agradeço a esse líquido apodrecido que existiu nas profundezas da terra.

No entanto, o que se pode fazer com petróleo? Não se pode beber, é morte certa. Também não é possível se banhar nele, pois o óleo penetra nos poros, impedindo a pele de respirar, e aos poucos você morre pela falta de oxigênio.

É curioso que um barril de petróleo valesse centenas de litros de água. Hoje, uma bacia  do chamado ouro negro não compraria uma gota de água potável...

Quando penso nisso, olho ao redor e observo impotente a dominância inquestionável da natureza sobre a humanidade. É espantoso como sempre nos julgamos superiores aos vegetais.. No entanto, elas sobrevivem a esse mundo como sempre sobreviveram. Muito diferente de nós...

“Não sei como será a terceira guerra mundial, mas sei como será a quarta: com pedras e paus” – um dos grandes pensadores do passado disse uma vez. Ele estava quase certo: a Quarta Guerra foi combatida com os restos das armas do passado.

Não foi por poder, ideologias, nem mesmo por território, ainda menos por petróleo. A aniquilação quase total da raça humanafoi por algo muito mais simples e precioso:

Água!

Após a Terceira Guerra, algo aconteceu. Ninguém sabe dizer exatamente. Mas em algum momento, a água, vital à sobrevivência humana, tornou-se um veneno letal! O líquido que nos mantém vivos trouxe a Praga. Aqueles que dele bebiam em sua forma natural eram contaminados e tornavam-se criaturas obscenas, deformadas e dementes: os Invunche, pobres coitados condenados a uma vida de pústulas, dor e agonia quase eterna, pois a doença fazia com que seus corpos passassem a se tornar uma massa pútrida e cancerosa até desfazer-se numa gosma ainda mais pútrida e contagiosa. Tudo em um invunche é contagioso! Sua mordida, seu sangue, seu suor, em suma: tudo. Logo os maiores centros urbanos caíram dominados por essas criaturas saídas de pesadelos. Sobreviveram os miseráveis, os marginalizados, aqueles que não tinham a riqueza necessária para pertencer àquele universo. Esses, que um dia foram considerados a escória da humanidade, hoje são os únicos que ainda a representam. Somos uma espécie em extinção...

Os sobreviventes voltaram-se aos céus pedindo clemência e salvação, e a prece de alguns foi atendida. Nas montanhas do leste, conhecidas como Murontanha, surgiu um menino coberto de ouro e sagrado desde sua concepção por uma virgem: O Sapainca, o Imperador Menino!

Governando a partir de Limpágua, a cidade sagrada daquele povo guerreiro, de onde a água pura e imaculada flui das rochas, o menino-deus profetizado pelos sacerdotes do passado guiou o seu povo, os Quechua, para uma era dourada de prosperidade e paz. O Sapainca apregoava que seu povo era o escolhido para repovoar a terra.

Mas havia aqueles que desejavam a mudança para todo o mundo e não somente para poucos eleitos. Eram guerreiros e cientistas que vagavam pelas cidades em busca da Arma capaz de pôr um fim à ameaça Invunche. Eram homens e mulheres decididos a fazer do mundo um lugar melhor para todo ser humano. Eles viviam numa cidade escondida, a cidade oculta de aip Ion, e o povo os conhecia somente como Milicos.

No entanto, mesmo em meio a tantas mudanças no mundo, há algo na humanidade que jamais muda: sua ânsia desenfreada e incontrolada pelo poder! O Imperador Menino não estava disposto a permitir que tal Arma pertencesse a outro que não a ele. Assim, hordas e mais hordas de seu exército desceram de Murontanha e invadiram o oeste em busca da cidade oculta, e assim começou a Quarta Guerra.

No entanto, essa não é a história da Quarta Guerra, embora tenha acontecido na mesma época. Essa história talvez não teria acontecido se a Quarta Guerra não tivesse explodido. Mas essa é a história de uma família. A história de um homem cheio de visão e ideais, que mudou o mundo onde vivia.

Essa é a História dos Maudsley.

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