O Saci e o Menino

Autor: T.C. Oaks

O Saci e o Menino

Data Publicação
23/10/2019 09:22:47

Ele se encolheu na mata, seu corpo diminuto embrenhou-se entre os arbustos sem dar atenção aos espinhos que rasgavam sua carne. Enfurnou-se ente as sebes e ficou o mais imóvel que podia, a noite estava escura, mesmo com a lua cheia no céu.

Lars segurava o choro, com pouco mais de 9 anos vira o que muitos homens não eram capazes de entender. Ao longe, o pequeno vilarejo em que morava, ardia em chamas.

Um som metálico, arrastado pelas folhagens, tornou-se mais alto. Lars, olhos arregalados de pânico, tampou a boca e forçou-se a conter a respiração ofegante. Seu perseguidor chegou perto, a luz da lua não o tocava, o menino via somente sua silhueta recortada pelas chamas do vilarejo.

O caçador parou. Estava tão próximo que Lars sentia o fedor de excrementos. Ouvia o próprio coração bater tão alto e forte que achou que o adversário o ouviria também.

-Por favor. - Ele rezou bem baixo. - Se alguém estiver me ouvindo, me ajude! - O captor moveu a face em direção do som, e a luz resvalou em sua face. Lars conhecia seu perseguidor: era Samuel, o padeiro. Um homem bondoso, que sempre dava ao pobre menino as sobras do dia. Fossem bolos, pães e as vezes até mesmo carne. Samuel tinha um sorriso bonachão e olhos bondosos e claros.

Mas isso fora antes...

Agora, tinha o sorriso da morte na face descarnada! Os olhos claros também não estavam mais presentes, somente orbitas vazias que o encaravam naquela face escaveirada. Alguns poucos pedaços de carne anda agarravam-se ao rosto e pingavam o sangue ainda fresco. Naquela mesma manhã Samuel sorrira e brincara com o menino. Quando a noite veio, ele lutara e garantira a chance de Lars escapar.

Agora, perseguia-o sem misericórdia.

Aquilo, que até pouco tempo fora Samuel, continuava a virar o rosto desprovido de olhos na direção do rapaz. Lars aterrorizado esvaziou a bexiga nas calças, tinha a absoluta certeza que aquela face sem olhos o observava, o ser ameaçou um passo na direção do rapaz quando um barulho se ouviu ao longe. O cadáver de Samuel virou-se e caminhou naquela direção.

O menino ficou estacado no mesmo lugar pelo que lhe parecera eras, os braços e penas formigaram ficaram dormentes e depois desistiram de reclamar. Moveu-se somente quando finalmente acreditou que seria seguro sair.

Mas não era...

O padeiro estava parado a poucos metros de onde o menino se escondera, imóvel e silencioso, como só os mortos são capazes.

S-samuel, por favor! – Lars implorou, as lágrimas já não evitavam correr pela face atemorizada.

O cadáver ambulante ergueu as mãos, a enorme algema no pulso arrastou a corrente, o maxilar exposto se abriu e emitiu um lamento. Era um uivo agudo, um ganido saído das profundezas das sepulturas, um morto que convidava outros mortos à caça.

Lars chorou. Os soluços explodiram em sua garganta, enquanto o pânico o afogava, mas ainda assim, correu. Seu corpinho frágil movia-se furioso pela mata, afoito pela vida! Tropeçou numa raiz exposta e caiu por um barranco até a beirada de uma ribanceira. Ainda chorava.

-Alguém me ajude por favor. – Bradou entre soluços. Mas só os mortos responderam com seus lamentos.

Ele gritou apavorado, olhou ao redor, um ribeirinho estava diante dele, e uma árvore com suas raízes expostas alongava-se até o riacho, seus longos galhos pareciam mãos que se curvavam para beber do rio.

-SOCORRO! O menino gritou desesperado, não sabia mais para onde ir. – Os mortos continuavam sua canção lamuriosa, cada vez mais próximos. – ALGUÉM ME AJUDE. – A voz saiu quase inteligível em meio ao choro desenfreado.

-Voismicê tá perdido? - uma voz aguda perguntou.

O Menino ofegou horrorizado, olhou ao redor, sem encontrar ninguém, até que estacou nos galhos da árvore: Havia um outro garoto ali, deveria ter a sua idade, era um dos selvagens. Tinha a pele escura do povo da floresta, os cabelos fartos que lhe caiam pelos ombros escuros como sombras, e os dentes claros reluziam como o luar. Estava basicamente nu exceto por uma pequena tanga cobrindo-lhe o sexo. Estava em cima de um galho, fino demais para seu peso, mas não parecia ter medo, tentava inutilmente alcançar algo no riacho, um tecido vermelho preso numa pedra.

-Você precisa ir embora! - Lars gritou. - Os mortos! Eles estão atrás de mim! – falou para o menino. O pequeno selvagem ainda pendurado de ponta cabeça no galho, olhou na direção do cortejo que se aproximava e deu de ombros.

-Tão atrás de voismicê e não de mim. – Voltou-se novamente para o trapo carmesim. -Tenho coisas mais importantes para me preocupar. – Falou enquanto tentava, em vão, agarrar o tecido.

-Eles vão te pegar também! Você precisa fugir! Lars falou já iniciando sua marcha, mas o outro garoto continuava empenhado em alcançar o trapo.

-Não vou ir para lugar nenhum sem meu chapéu! Não tem cabimento sair sem chapéu! - O pequeno selvagem respondeu despreocupado, Lars já vislumbrava entre as árvores os cadáveres se aproximando! Considerou aquilo a coisa mais estúpida que já ouvira e deu as costas ao garoto, ele que morresse por aquele chapéu! Preparou-se para correr mais uma vez.

Foi quando ouviu o estalar do galho. O menino selvagem se desesperou e agarrou-se como pôde na árvore, mas seu delicado equilíbrio se perdeu.

-Socorro! - gritou, Lars começara a se afastar, olhou por cima do ombro, já era possível discernir os mortos, eles se arrastavam bem lentamente, os corpos trôpegos arrastando as pesadas correntes, todos eles mutilados. P menino reconheceu Don’Elis, a cozinheira, seu ventre rasgado e os intestinos enroscados nas pernas. Valerius, o chefe dos soldados, tinha a própria espada enfiada até metade do tórax, o corpo quase dividido em dois pelo golpe. O braço esquerdo estava tão pendente que a mão chegava a raspar no chão. Claudemir, o ferreiro, tinha o corpo todo queimado. Todos mortos e mutilados, todos presos pelos enormes grilhões que os amaldiçoara a uma eternidade de sofrimento. Todos indo em direção do pequeno selvagem que lutava para não cair na água.

Uma isca perfeita que daria a ele a chance de escapar. Tudo o que tinha de fazer era correr. A morte daquele selvagem era a chance que Lars precisava para sobreviver. Qualquer pessoa não pensaria duas vezes e correria sem olhar para trás.

Mas Lars era diferente.

Parou de correr, e virou-se para a cena: O menino estava pendurado por uma mão, o cortejo fúnebre aproximava-se lentamente, o riacho continuava seguindo veloz, a água puxou o pequeno trapo vermelho.

-NÃO! Meu chapéu! – o garoto gritou desesperado, não parecia temer os corpos que se aproximavam, temia somente perder o maldito chapéu! Lars correu, mas em direção do garoto e viu o pequeno e puído trapo vindo em sua direção, não sabia o que havia de tão importante naquela droga de chapéu, mas decidiu apanhá-lo.

-Larga isso! O CHAPÉU É MEU! – O garoto selvagem gritou furioso.

Lars o ignorou, não se importava com a droga do chapéu! Na verdade, não entendia porquê estava ajudando aquele idiota, mas não conseguia evitar. Chegou embaixo do selvagem, o riacho era raso, batia um pouco acima dos joelhos do menino.

-Pula, eu te pego! – Falou demonstrando uma coragem que ele mesmo não sabia ter. Seus bracinhos tremiam de medo, a água estava fria, e os seres continuavam a se aproximar. Aqueles que naquele mesmo dia foram seus conhecidos e que agora eram seus algozes. Ele olhou novamente para o menino.

Vem, eu te salvo! – Falou, mas o garoto estendeu a mão com raiva. -ME DÁ MEU CHAPÉU! – Berrou furioso e ofendido, Lars observava o garoto, incrédulo. -ME DÁ MEU CHAPÉU! – o selvagem tornou a repetir.

-Toma essa droga de chapéu, falou irritado jogando ao rapaz o pano vermelho, o selvagem agarrou a indumentária em pleno ar e colocou na cabeça com a mão livre. Tudo isso sem soltar a outra do galho.

Os mortos agora estavam a poucos metros, Lars já era capaz de diferenciar os intestinos de Don’Elis, o grosso enrolava-se na cocha como um verme amarelo coberto de sangue, já o delgado arrastava-se como uma enorme linguiça daquelas que a senhora costumava rechear.

O Garoto selvagem gargalhou um riso estridente e escandaloso.

-Porque voimicê me ajudando? - Perguntou despreocupado, ainda balançava com uma única mão, no galho, uma perna se balançava selvagem a outra estava dura e estática. Lars encarava os mortos, Valérius tropeçou na própria mão pendurada e a carne rasgou ainda mais. Parecia o som de pano úmido sendo esgarçado.

-Temos que fugir, pule eu te salvo! – Respondeu, tentava parecer calmo, mas estava apavorado. O selvagem esticou o dedo, apontando para as calças de seu salvador.

Voismicê mijou nas calças! – gargalhou. – Como um mijão como voismicê vai me ajudar?- gargalhou mais uma vez!

-Você vai morrer, pule logo seu maluco! – Lars bradou envergonhado, o selvagem então se soltou, seu corpo caiu pesado, sobre o outro menino a perna dura bateu na sua cabeça. Doeu como se ele tivesse levado um golpe de porrete. A cabeça latejava e ele estava tonto, mas o outro menino desaparecera. Somente a perna de madeira estava lá boiando na água.

Lars arrasou-se, entretanto foi impedido por  Samuel que agarrou sua perna, o menino gritou e chutou o rosto descarnado, mas era em vão. Os corpos começavam a rodeá-lo.

Nenhum sinal do outro garoto.

Um pássaro piou. Um pio alto, estridente, que lembrou o riso do garoto e trouxe outra lembrança, uma memória esquecida que agora submergia

Lars era bem novo, aprendera a falar a pouco, estava na padaria esperando um pão, quando ouvira o mesmo pio. Naquele dia, o padeiro dera dois pães para ele comer e pedira-o que colocasse um pouco de fumo do lado de fora da padaria.

É para o Saci... – Samuel explicou. – Quando grita assim, significa que quer fumar. – Completou. O menino foi com suas pernas roliças e mãos gorduchas carregando os presentes, depositou o fumo onde fora ordenado e então colocou junto à erva, um de seus pães.

-Por que fez isso? Samuel indagou.

-Ele deve estar com fome. – Respondeu, Samuel sorriu.

-Você é um bom garoto Lars. – Sua voz ecoou na lembrança do rapaz.

O Samuel, sem face arreganhou a boca.

Lars fechou os olhos.

-Você realmente é um bom garoto, Lars. - Uma voz aguda soou em suas costas.

E então veio o vento.

Soprando furioso um pequeno torvelino arremeteu contra o cadáver animado de Samuel, que com um tranco foi arremessado contra os outros cadáveres. Lars observava atônito o que acontecia, o pequeno redemoinho rodopiava, uma mancha negra que parecia ter vida própria. Atacava cada um dos defuntos, girava-os ferozmente e então arremessava-os longe. Os corpos voavam para o alto e se estatelavam entre árvores, pedras e demais obstáculos. Logo eles tentavam se arrastar, mas tinham os ossos partidos em tantos lugares que, mesmo para eles, era difícil colocarem-se de pé.

Lars sentado, olhos esbugalhados viu o rodamoinho perder força e se desfazer diante de seus olhos. Então, na mesma árvore de outrora encontrou o menino acocorado sobre sua única perna.

A mesma pele escura, o mesmo cabelo longo e pesado, mas não o mesmo rosto. A face infantil, agora tornara-se monstruosa, olhos brancos, enormes e sem pupilas, uma boca descomunal, arreganhada num sorriso de dentes enormes pontudos e serrilhados seguravam um cachimbo e o tragavam. Pequenos chifres recurvados seguravam o capuz. A criatura gargalhou o riso agudo que parecia o canto de um pássaro. Tragou profundamente antes de expelir a fumaça.

Voismicê não sabia quem eu era? – Perguntou. Sua voz era histérica, falava muito rápido e agudo, meio louco e completamente perigoso. Enquanto encarava o garoto cruzou num salto a distância entre os dois. Caiu na frente do rapaz. O cachimbo aceso exalava um odor forte, um perfume terroso. - Sabia? – perguntou mais uma vez, a boca tinha sete fileiras de dentes serrilhados e pontiagudos. A criatura passou o dedo longo terminados em garras afiadas como navalha nas lágrimas do menino. – Sabia? Tornou a perguntar, a voz aguda tornou-se um rosnado.

Lars moveu a cabeça assustado, em negativa e cheio de pânico. Ao fundo os cadáveres ainda se arrastavam em direção deles.

Então porque voismicê me ajudou? – ele perguntou abrindo ainda mais o riso, gargalhou selvagem. – Voismicê é abestalhado? – podia te escapado, mas agora aqui, e sabe o que eu vou fazer com voismicê? - Ele gargalhou alto e escandalosamente descontrolado, depois fechou a boca mas manteve o sorriso brutal na boca.

Vô matá voismicê tudinho!- falou entredentes.

O pequeno Lars soluçou, a criatura a sua frente raspava a unha no rosto do menino, fazia cócegas e ardia. Lars sabia que iria morrer. Respirou fundo.

-Você precisava de ajuda. – falou por fim, o Saci parou o dedo e o observou surpreso.

- E dai? O que voismicê tinha de vê com isso? – a voz aguda soou jocosa, os mortos se arrastavam cada vez mais próximos.

-Nada! Mas Samuel me ensinou a tratar os outros como eu queria ser tratado. Todo mundo sempre foi mau comigo, porquê eu era filho de uma quenga! Sempre me trataram mal. Mas Samuel sempre me deu de comer, Don’Élis cuidava de mim no frio, Claudemir me deixava dormir na ferraria e Valerius ia me treinar para eu ser um guarda. Eles sempre ajudaram e agora estão mortos, e iam matar você. Eu não podia deixar. Eles mereciam mais.

-Voismicê é abestalhado, Lars filho duma Quenga! – a criatura falou e começou a gargalhar.

Lars fechou os olhos e chorou pelo luto daquelas pessoas que um dia lhe deram amor.

-Voismicê é abestalhado Lars, e eu gosto de abestalhados! – O Saci falou enquanto começava a girar sobre o único pé.

Girou, girou e girou. Lars girou com ele, ficou tonto, vomitou e desmaiou. O redemoinho cresceu, girou cada vez mais rápido, os mortos eram aos poucos empurrados pelo vento tempestuoso. Erguiam suas mãos destruídas tentando alcançar o redemoinho que de repente parou.

O Saci havia sumido e com ele o menino.

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