Casa de Veraneio - por Bruna Folster

Casa de Veraneio - por Bruna Folster

Lançado na antologia Eu Escritor Sesc

O choro é livre e escorre pelo meu rosto ao abrir o portão da casa da praia.

Ninguém mais vem aqui!

O Guarujá tornou-se uma cidade fantasma e a praia do Pernambuco, mais ainda, assim como a bela casa de veraneio. Não há famílias, tudo está à venda.

Casas fechadas, a mata invadindo a calçada. Ruas de terra cheias de poças e aquelas asfaltadas, esburacadas.

Para onde foi a alegria?

Para onde foram todos?

Entro com o carro na garagem. Desço. Respiro fundo, buscando forças para conter as lágrimas insistentes.

O que será de nós?

Caminho em direção à porta principal, giro a chave com mãos tremulas. Fechando os olhos, abro a porta de uma vez.

A casa jaz abandonada. O silêncio sufocante contamina o ambiente, os fantasmas habitam em cada brecha de um lugar que, um dia, fora acolhedor...

A sala, antes de festas e bailes, hoje é demasiadamente espaçosa. A lareira continua repleta de cinzas de um inverno qualquer. Odor de uma maresia mofada. Algumas teias de aranha decoram as vigas enquanto livros espalham-se num dos cantos. As almofadas outrora alvas tingiram-se com bolor. O sol ilumina o jardim que pode ser visto através das janelas e portas de vidro.

Por uma breve eternidade, caminho pelos cinco ambientes. Roço os dedos pelos sofás, acaricio a mesa de baralho, toco as cadeiras de balanço e enfim chego à parte lateral. Vou até a grande porta envidraçada. Destravo cada lado e empurro para abrir. Está enferrujada e o barulho me assusta; a brisa da manhã, porém, me envolve. Respiro profundamente.

Aparentemente o único local que a tristeza não se apossou foi do jardim que mantemos bem cuidado e da maneira que os antepassados gostavam.

A beleza das orquídeas abertas nas árvores, o canto dos pássaros, a grama recém-cortada com cheiro de infância bem vivida.

Pagamos o jardineiro todo mês, o único funcionário que restou.

Continuo vagando o olhar pela piscina cristalina, que tem alguns azulejos rachados. A churrasqueira do outro lado me dá água na boca, só ao me lembrar da picanha ao alho. Receita de família.

Inspiro. Sinto-me oca, solitária e esquecida. Tento não pensar nisso, a manhã está apenas começando, preciso permanecer focada.

Ninguém teve coragem de descer, por isso vim só. Eu e minha mania estúpida de proteger aqueles que amo. Pessoas que nem ao menos se importam com minha dor. Acham que sou mais forte do que realmente aparento.

Acham-me fria e dura quando na realidade me sinto uma gelatina cheia de incertezas.

Mas neste exato momento o choro é livre e alto!

Desabo na grama. Foram tantos anos de falas não ditas, abraços desinteressados, beijos insinceros. E agora somente os fantasmas me envolvem e tentam me consolar.

Uma infância verdadeira e entregue, uma juventude desapegada e um crescimento sem aceitação. Meus heróis imperfeitos se foram; deixando a casa, e a mim, vazias.

Culpa, não sinto mais. Conheço a realidade das escolhas malfeitas; do orgulho da distância e das datas comemorativas não convividas.

A vida nos engole e isola-nos. A inocência se foi e deixou um sabor amargo.

Arranco a grama com as unhas, a raiva me abafa.

Gostaria que este lugar explodisse!

Não sei por quanto tempo fiquei ali, mas me recompus.

Ah sim! Eu sempre me recomponho! Meus pesadelos são vividos dentro de mim.

Sou anestesiada pelo tempo, o sorriso político me defende, a insensibilidade me protege e a mulher que todos julgam ser de aço, mais uma vez, se levanta.

Hoje, tenho uma missão.

Guardar as lembranças nas caixas, descartar o que não tem mais valor, cobrir com lençol os móveis maciços e imêmores.

Trancar a porta e nunca mais voltar.

Bruna Folster 

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